segunda-feira, 21 de novembro de 2011

A Psicanálise e a Universidade


A universidade surgiu no final do século XI na Europa.
O crescimento das cidades, maior divisão do trabalho e a formação de um espaço cultural comum a toda a cristandade criaram uma nova paisagem intelectual propícia à formação institucionalizada em vários campos do conhecimento.
A primeira universidade foi criada em Bolonha (Itália), em 1088.
Logo depois, foram fundadas as universidades de Paris (França) e Oxford (Inglaterra). Em seu início havia três grandes campos de estudo: Medicina, Direito e Teologia.
Para ingressar, o aluno devia obter antes uma formação literária e científica básica, o chamado ensino de base - o das artes - que constava do estudo de gramática, lógica e retórica e também de aritmética, geometria, astronomia e música.
Após seis anos (geralmente dos 14 aos vinte anos de idade) o aluno obtinha o mestrado em artes.
Para o doutoramento em Medicina e Direito eram necessários mais seis anos de estudo.
Já o doutor em Teologia precisava de oito anos de estudo e devia ter idade mínima de 35 anos.
A escolástica era, por excelência, o método do intelectual da Idade Média.
Este se baseava nas contribuições da civilização cristã e do pensamento do mundo antigo: Bíblia, Platão, Aristóteles, entre outros...
Foi Santo Tomás de Aquino (que estudou e lecionou em Paris) quem elaborou a síntese entre o pensamento cristão e as idéias de Aristóteles, buscando unir fé e razão, questão essa muito presente naquela época e ainda hoje alvo de reflexões (Le Goff, 1993).
O Brasil, descoberto mais de quatrocentos anos após a Universidade de Bolonha ter sido fundada, ainda precisou esperar quase outro tanto para dar o passo inicial.
A primeira universidade surgiu em 1827, em Olinda, Pernambuco, enquanto que em São Paulo a Faculdade de Direito (1827) e de Medicina (1913) foram as sementes para um desenvolvimento que não mais parou.
A Universidade de São Paulo foi oficialmente fundada em 25 de janeiro de 1934, sendo que a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras se constituiu como eixo central do sistema universitário.
A Psicologia era uma cadeira na Filosofia já em 1934, mas o Instituto de Psicologia como um órgão autônomo só passou a existir a partir de 1969, tendo hoje pouco mais de 30 anos, portanto. Considerando os cerca de 1000 anos de vida acadêmica na universidade, podemos dizer que nós ainda estamos nos cueiros...
Essas brevíssimas informações históricas mostram tão-somente que o interesse em sistematizar a pesquisa e o ensino do conhecimento humano, dentro de uma instituição, existe já de longa data, fato este que, com certeza, trouxe benefícios assim como prejuízos à criatividade no trabalho científico.
A Psicanálise como método próprio de investigação do funcionamento psíquico, como disciplina autônoma, como prática terapêutica e como campo de pesquisa da mente está à disposição apenas há 100 anos.
No que diz respeito à pesquisa propriamente, apesar de várias publicações a respeito, do interesse de muitos psicanalistas e da disposição e procura por contatos interdisciplinares, há muita controvérsia, discordância e críticas.
Os conflitos existem, sobretudo, quando se trata ou se pretende fazer pesquisa clínica, isto é, quando o objeto de observação e de investigação é a prática do analista, pois ele fica numa posição delicada, desde que se torna sujeito e objeto de sua pesquisa, simultaneamente.
O método psicanalítico considera o interjogo das reações transferenciais e contratransferenciais presente na relação analista-analisando.
Uma vez que este é um processo basicamente inconsciente, a necessária isenção e objetividade do analista tende a ficar comprometida.
Desta forma, é de se esperar que o analista pesquisador de sua própria clínica tenha atingido um alto grau de conhecimento de si mesmo, a fim de manter bem colocado seu discernimento; mas esses analistas, em geral, não têm interesse em realizar pesquisas em universidades...
As dificuldades não são tantas quando se fazem outras pesquisas, não-clínicas, mas envolvendo a Psicanálise.
Por exemplo, as pesquisas no campo da Psicanálise Aplicada utilizam-se do vértice psicanalítico para abordar produções realizadas em outras áreas do conhecimento humano.
Encontram-se, facilmente, boas dissertações e teses cujo tema é a abordagem psicanalítica de obras literárias, artísticas, biográficas, ou mesmo científicas.
 A maior parte desses trabalhos encontrou abrigo nos cursos de pós-graduação das universidades, sobretudo nas faculdades de Psicologia.
Vários problemas se apresentam para a pesquisa em psicanálise na universidade.
Definir com razoável clareza o foco de pesquisa, a questão que interessa e como será abordada essa questão é apenas o começo.
O fulcro conflituoso central talvez seja relacionado aos problemas metodológicos. De acordo com Feyerabend (cf. Horgan, 1998), qualquer metodologia serve, o que não significa que qualquer método indiscriminado deva ser usado, mas sim, que o objeto de estudo requer que se descubra qual a metodologia adequada para estudá-lo.
Dentre os psicanalistas pós-Freudianos que mais contribuíram para o rigor científico da prática clínica, destaca-se Bion (1991).
Foi ele quem se preocupou mais seriamente em propor uma teoria que pudesse ser usada para tornar generalizável aquilo que se observa na clínica, inclusive desenvolvendo um sistema de notação.
Contudo, essa teoria é mal compreendida até por psicanalistas, pois é fruto do alto grau de desenvolvimento atingido pelo próprio Bion e que poucos têm alcançado. A sofisticação não decorre de ser uma teoria particularmente difícil, mas sim, de que sua apreensão é resultante do desenvolvimento pessoal do analista.
Não se pode negar, contudo, que a parceria entre Universidade e Psicanálise tem um quê de artificial.
A Universidade independe da Psicanálise para sobreviver e o inverso também vale: a vida da Psicanálise encontra sua fonte sobretudo na prática clínica.
Nenhuma das duas precisa da outra para sobreviver e para continuar em atividade. Naturalmente, isso não quer dizer que uma não pode contribuir - e muito - com a outra.
A cooperação mútua pode ser profundamente enriquecedora. Do meu ponto de vista, acredito que a Universidade, em especial, pode se beneficiar largamente da atividade de psicanalistas em seu meio.
Apesar da Psicanálise ter entrado na Universidade, formalmente, há bem pouco tempo, por meio de disciplinas da graduação e depois da pós-graduação, ou de cursos de especialização e depois pesquisas, sua principal contribuição vem do fato de propor uma concepção de homem que pretende uma melhor integração entre todas as suas facetas.
Como escreveu Schorske (1990), a Psicanálise no início do século XX trouxe à tona o "homem psíquico," que passou, a partir de então, a fazer parte de uma investigação sistemática e específica, como nunca o fora antes, mesmo tendo sempre sido objeto de interesse de estudiosos de todos os tempos.
Supondo que haja um interesse mútuo, penso que a pesquisa é uma das vias pelas quais a cooperação de mão dupla possa se dar. Torna-se indispensável, porém, descobrir como levar adiante essa cooperação, sem haver desvirtuamento daquilo que é específico da Psicanálise e dentro de uma instituição do porte da Universidade.
Estou longe de ter uma proposta, mas penso e espero que a própria experiência venha a ensinar os caminhos.
Como afirmou Eizirik na mesa sobre Pesquisa, a Psicanálise, através de Freud, namora a Universidade desde seu início.
Na verdade, não é a Psicanálise - que prescinde da academia - mas sim, os psicanalistas, pois a Universidade atrai muito e isso por vários motivos: interesse em ampliar o conhecimento, uma certa idealização da vida acadêmica, campo de trabalho em tempos razoavelmente difíceis...
A Universidade, em minha opinião, não forma o psicanalista, como afirma Gilberto em sua apresentação.
A formação do psicanalista, como tal, dá-se pela própria análise e também analisando outros. Se ele não consegue desenvolver-se por esse método, não há outro, não há substituto à altura.
É a clínica da auto-observação e da observação do outro na relação analítica que propicia o desenvolvimento do analista em sua específica atividade.
Só se descobre a mente do outro, ajudando-o a descobrir-se, através da descoberta da própria mente. Não há outro jeito, tudo o mais é ilusório.
A academia, em minha opinião, contribui para outra coisa, como, por exemplo, para ajudar o psicanalista a pensar como um pesquisador, não como clínico. Isto ele aprende no exercício particular de sua profissão.
Não é verdade que a pesquisa que o analista faz em sua clínica é a mesma que se pode fazer na universidade, num mestrado ou doutorado. Esta última supõe uma publicação de resultados que possam ser generalizados e compreendidos por todos.
A pesquisa do analista na intimidade de seu consultório, o mais das vezes, é impublicável; esta é uma característica própria da atividade analítica.
O analista pode, sim, usar sua formação para fazer um recorte no modo de abordar o problema que está interessado em examinar, numa situação outra, que não o setting analítico.
Em minha opinião, ainda se está tentando descobrir se a Universidade pode fornecer essa outra situação.
Penso que grandes são as dificuldades e os obstáculos, mas, ao que tudo indica, as portas não estão fechadas, nem de um lado, nem de outro.
Existe boa vontade e desejo de acertar e isso é importante para formar a base do desenvolvimento comum.
A meu ver, contudo, ainda há muito a aprender e necessários ajustes terão que ser feitos ao longo do tempo, com especial cuidado para que não se desfigurem, nem a prática psicanalítica, nem a academia.
  
Eva Maria Migliavacca
Instituto de Psicologia – USP

Referências
Bion, W. R. (1991). Transformations. London: Karnac.
Horgan, J. (1998). O fim da ciência (R. Eichemberg, trad.). São Paulo: Companhia das Letras.
Le Goff, J. (1993). Os intelectuais na Idade Média. Lisboa, Portugal: Gradiva.
Schorske, C. E. (1990). Viena fin-de-siècle: Política e cultura (D. Bottmann, trad.). São Paulo: Companhia das Letras; Campinas, SP: UNICAMP.

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